“Se Cabo Verde não é capaz de organizar um discurso histórico, alguém será capaz”

Professor da Universidade da Universidade de Évora, Portugal, investigador na área de património, com passagens frequentes por Cabo Verde, onde já deu aulas, Filipe Themudo Barata é um crítico da forma como o mundo anda a tratar a história. De passagem pelo Campus África, na Universidade de La Laguna, conversou com o Expresso das Ilhas e a Rádio Morabeza sobre a importância de preservar a memória.

Estamos a pôr a história de lado?
Estamos a pôr a história de lado. Aquilo que se chama ‘perda de memória’ tem a ver com uma obra que saiu há pouco tempo, de dois autores americanos, “O Manifesto da História”, e que está relacionada com as razões pelos quais a história se foi afastando, pouco a pouco, do espaço publico e as pessoas que a produziam, ou foram afastadas, ou não se importaram. Nos territórios onde a história tem por base a escrita, a bacia do mediterrâneo, onde a história se escrevia, as fontes estão disponíveis, mas nos países onde a história é construída através da oralidade, isto é mais complicado. É o que está a acontecer em África e em todas as comunidades do mundo onde a oralidade é uma base essencial de transmissão de conhecimento. Em África, alguns países piores que outros, é um problema cada vez mais evidente. O mundo urbano cresceu demasiado e todo o conhecimento que era produzido no mundo rural, digamos, mais verdadeiramente, ao ser transferido para a cidade vai-se dissolvendo. Quem vai viver para a cidade não só vai esquecer o interior, como produz novos patrimónios que são de geração urbana, nascem na própria cidade e que, pouco a pouco, vão começar a substituir os outros, sobretudo à medida que os mais velhos, da primeira migração para o mundo urbano, vão desaparecendo.

É o caso das línguas que desaparecem.
Porque desaparecem tantas línguas? Desaparecem línguas porque as pessoas envelhecem e perdem-se os últimos falantes de uma determinada língua, mas isso acontece porque essas línguas deixaram de estar nos mercados e nas escolas. Não foram transmitidas.

Em Cabo Verde ainda acontece uma coisa muito mais interessante, que é o problema de confronto entre o crioulo e a utilização do português, o que coloca problemas muitíssimos interessantes, que não têm a ver com a memória, mas com a sustentação científica daquilo que se faz. Dito de outro modo, e é terrível aquilo que vou dizer, ou se comecem a produzir obras cientificamente sustentáveis e válidas em crioulo ou o refúgio no crioulo acabará por isolar os cabo-verdianos do acesso às línguas de produção científica.

Uma discussão muito actual em Cabo Verde.
Uma língua, para poder permanecer, ou pelo menos para as comunidades terem alguma sustentação ou perspectiva de futuro, precisa de ser capaz de se impor ao mundo. Estamos numa globalização e o ensino tem a ver com publicar, disponibilizar ciência, investigar. Isto significa que os alunos que só sabem crioulo, que não sabem outra língua com consistência científica, o resultado é o isolamento. Isolamento, porque não têm acesso a conhecimento que está noutra língua e não se produz conhecimento na sua própria língua. Os falantes de uma língua que não tem sustentação técnica e científica correm o gravíssimo risco de se isolarem.

É a história que nos mostra isso?
É a história que nos mostra isso e nós tendemos a esquecê-lo.

Uma língua não pode existir apenas numa base informal…
A maioria das línguas em África existia na base informal, mas num mundo em que hoje as pessoas querem acesso ao emprego, num mundo em que estamos a competir em todos os sítios, o conhecimento é importante.

Deixe-me regressar àquela ideia da urbanização dos países e o que isso significa para a perda de património e de tradições. Esta urbanização é verificável em todo o mundo, inclusive em Cabo Verde.
No ano passado, fui a Cabo Verde apresentar um estudo da concentração urbana na cidade da Praia, que é esmagadora. A concentração urbana em Cabo Verde é, à sua escala, brutal. Isto significa a destruição de muitas comunidades rurais. Pessoas que vêm para a cidade e perdem os seus referenciais. Isto passa-se nas cidades de todo o Mundo. As pessoas vivem em espaços que não reconhecem e aos quais têm que se adaptar e o que é curioso é que as pessoas adaptam-se sempre. Quando vão para a cidade, as pessoas perdem uma parte das ligações que têm com as suas origens. Depois, perdem a coesão social. Pior ainda é quando vão viver para cidade e querem reproduzir a vida que tinham no mundo rural, criando guetos.

Sobre esta questão da salvaguarda do património, em que momento é que as autoridades, quem tem poder de decisão política, deve intervir no desenvolvimento natural da sociedade?
Boa pergunta. O melhor é fazemos já. Ou seja, sou a favor de estabelecermos algumas regras. E sou a favor, sobretudo, de aceitarmos que os patrimónios que duraram até hoje foram obra de quem os soube fazer e manter. Sou contra aquelas tentativas de o Estado achar que se pode substituir às comunidades para fazer as coisas que as comunidades souberam fazer durante séculos. Agora, também sou a favor de estabelecer algumas regras de enquadramento e o melhor é ser já. A história mostra-nos que se deixarmos as coisas irem sem destino, ao destino de cada um, o desinteresse é muito maior e é muito mais difícil intervir. Sou favorável, sobretudo, às regras de enquadramento para o património imaterial e o património, de uma maneira geral. Cabo Verde tem esse problema de forma muito interessante e muito diferente do que é comum, porque Cabo Verde tem mais de metade da população a viver fora e, portanto, o seu património é extraordinariamente complexo e mais difícil de gerir.

Os alunos que só sabem crioulo, o resultado é o isolamento”

Sabemos hoje menos história do que sabíamos há 20 ou 30 anos?
As elites dos países sabem hoje menos história do que as elites sabiam há 30 anos.

Ainda sou do tempo em que os cursos de economia tinham cadeiras de história – história dos factos económicos, da civilização – com perfis muito variados mas que procuravam dar uma visão, por exemplo, das crises e da recuperação dessas crises. Em meados dos anos 90, a maior parte dos economistas começaram a fazer fórmulas e o que nos vieram dizer foi que já não era preciso dar história porque eles próprios dariam. A história que eles passaram a dar é uma coisa muito curiosa porque começa por volta dos anos de 1800. Não sei se já reparou, mas é muito interessante como hoje os grupos que dominam a nossa sociedade são gente formada em economia. Eles, no fundo, estabelecem o discurso público da história e a história começou em 1800. Há um outro motivo, também muito interessante. Para ler a documentação disponível atrás do século XVIII é preciso utensílios técnicos que cada vez estão menos disponíveis. Em Portugal – em Cabo Verde será pior – o latim praticamente desapareceu das escolas, mas a maior parte das fontes que existem, atrás do século XVI, são quase todas em latim. Grego já é uma língua que só se fala na Grécia. Paleografia, epigrafia… pouquíssima gente controla estes saberes técnicos

Os grupos que dominam a nossa sociedade são gente formada em economia. Eles estabelecem o discurso público da história e a história começou em 1800

Lembro-me de um artigo que li há uns meses, no The Guardian, em que o autor propunha que se passasse um bulldozer por cima das escolas de economia, porque estão a dar cabo das sociedades.
E estão. Já agora, e esta é uma nota humorística, ainda se eles [os economistas] fossem competentes, mas não são, as crises existem à mesma. Sobre a história, para se saber, alguém tem que estudar e o problema é que somos cada vez menos a faze-lo. Cabo Verde precisa muito de produtores de história, com formação e consistência académica, com publicações em revistas de referência, precisa muito, porque, caso contrário, pouco a pouco, isso desaparece tudo.

Depois acontece outra coisa que é lamentável. Se Cabo Verde não é capaz de organizar um discurso histórico, alguém vai ser capaz.

Esta é uma discussão muito actual nas sociedades africanas.
Muito actual. Ainda há pouco tempo fiz parte de um júri em França e o que me fazia impressão era que o aluno era obrigado a organizar o seu discurso segundo a forma como os franceses olhavam para a sua própria história. Ele não era incentivado a ter o olhar africano, apesar de ser um homem do continente africano. Isto resultou numa situação muito desagradável em que, ao invés de discutir com o aluno, discutia com outro membro do júri. Se nós não somos capazes de produzir, alguém fará isso por nós. Não tenho dúvidas nenhumas sobre isto.
Fonte: Expresso das Ilhas

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