Uma janela de oportunidade com o tempo contado

A digitalização vai transformar a indústria a nível global. Mas, os países africanos são menos digitalizados e têm impactos menores quando instalam tecnologia.

Esta é uma das conclusões saídas do estudo Digitalização e o Futuro da Manufactura em África, feito por Karishma Banga e Dirk te Velde, e publicado esta semana pela ODI (Overseas Development Institute, um think tank independente, com base no Reino Unido, especializado em questões humanitárias e de desenvolvimento).

A digitalização é a transformação digital da economia, alcançada através da interacção de tecnologias – como a computação em nuvem, inteligência artificial, internet das coisas, etc. – com infra-estruturas físicas de tecnologia e informação. Isto pode levar ao desenvolvimento de máquinas inteligentes, plataformas inteligentes e produtos digitais. A economia digital é apoiada por um ambiente favorável de conhecimento tecnológico, sistemas nacionais de inovação, políticas e regulamentação e outros ‘aceleradores’ digitais.

Actualmente, existe uma persistente fractura digital: a África subsaariana está significativamente atrasada no acesso à internet – a taxa de penetração foi menor em 10% que no sul da Ásia em 2016 – e no uso da internet. Se em África o impacto da digitalização é ainda menor, isto também significa que há oportunidades para explorar. Se os países resolverem enfrentar estas restrições, criam-se abertas que permitirão melhorar a produtividade, aumentar a procura de produtos novos e existentes, reduzir os custos de produção e permitir a entrada de pequenas e médias empresas no mercado de exportação.

As análises feitas sobre os países de rendimento médio e baixo, nos últimos 30 anos, confirmam que um aumento da digitalização conduz ao aumento da produtividade do trabalho fabril. No entanto, enquanto a duplicação da penetração da internet nos países de rendimento médio aumenta a produtividade do trabalho em 11,3%, nos países de rendimento baixo esta subida é de apenas 3,3%. Nos países subsaarianos tem-se assistido a uma evidente desaceleração da produtividade do trabalho industrial. Isto porque para melhorar o impacto da digitalização, o desenvolvimento do conhecimento é crucial. Só uma força de trabalho qualificada pode aumentar o impacto da entrada das tecnologias.

A baixa digitalização da economia africana mostra que, comparado com outras regiões, o continente ainda não experimentou o impacto total da onda tecnológica global. Além disso, a taxa de digitalização também varia significativamente entre os vários sectores de manufactura: indústrias de electrónicas, de informática e de transportes são automatizadas mais rapidamente do que as de alimentos, bebidas, tabaco, madeira ou papel.

Apesar dos países em desenvolvimento terem uma janela temporal maior para se adaptarem ao futuro digital, também é verdade que enfrentam duas ameaças principais: por um lado, o baixo nível de digitalização, por outro, o baixo impacto da crescente digitalização.

Para digitalizar a manufactura, os países africanos precisam de aumentar o acesso à internet e a outras tecnologias de informação e comunicação. Para isso, precisam de alterar as condições específicas dos seus países e contribuir para melhorar o ambiente de investimento, criar sistemas nacionais de inovação e aperfeiçoar as infra-estruturas de TIC.

Beneficiar a manufactura africana com a digitalização implica ainda o desenvolvimento de conhecimento. Estar pronto para o futuro envolve a revisão e a reorientação dos currículos das instituições de ensino à volta das disciplinas STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

A indústria 4.0

A proximidade da quarta revolução industrial, com o aumento do uso de tecnologias avançadas como a impressão 3D e a robótica, deverá ter um impacto enorme no processo de manufacturação a nível global. A questão que o estudo agora publicado aborda é se os países em desenvolvimento poderão aproveitar esta revolução digital para aumentar o seu crescimento industrial e o número de empregos, ou se ficarão para trás.

A mensagem-chave deste documento é que os governos precisam de se preparar melhor para o futuro digital. Evidências no relatório mostram que os países africanos não só enfrentam uma exclusão digital significativa como também beneficiam menos dos níveis cada vez maiores de digitalização. Com a tecnologia a evoluir a uma taxa superior à do conhecimento, aumenta o risco de incompatibilidade.

Entretanto, à medida que os países africanos estão a adaptar-se ao futuro digital, há uma oportunidade para desenvolverem os sectores menos automatizados, onde a instalação da tecnologia tem sido mais lenta. Mas esta janela de oportunidade deverá ser inferior a 30 anos.

Os países africanos estão numa luta árdua para promoverem a manufactura intensiva (o peso do sector nos respectivos PIB tem andado nos 10%, com este valor a cair em alguns países nos anos mais recentes). A indústria direccionada para a exportação, de emprego intensivo e de maior valor agregado, continuará a ser um dos principais objectivos futuros, o que obrigará a enfrentar os constrangimentos sentidos pelo sector: custos elevados de energia e as práticas de gestão. Serão igualmente necessárias melhorias nas infra-estruturas básicas para conseguir fontes de energia confiáveis, telecomunicações e estradas, combinadas com uma abordagem direccionada para a construção de capacidade industrial.

Em comparação com os países desenvolvidos, o crescimento da economia digital tem sido maior nos países em desenvolvimento. No entanto, existe uma exclusão digital, global e persistente, entre os países desenvolvidos e menos desenvolvidos, bem como entre países em desenvolvimento e países menos desenvolvidos. Os países da África subsaariana estão significativamente atrasados no acesso à Internet. Estão igualmente atrasados no uso da internet para tecnologias digitais, como aplicações, computação em nuvem, comércio electrónico e implantação de máquinas inteligentes, como robôs e impressoras 3D.

Um factor crucial desta exclusão digital prende-se com o custo do capital, que é mais caro nos países africanos, tanto em termos de valor absoluto como em relação ao trabalho. Mesmo que o custo da digitalização, dos robôs e da automação caia, os países africanos continuarão a ter dificuldades em financiar a digitalização da indústria, principalmente por causa dos custos dos empréstimos. Outros factores que influenciam esta exclusão digital são a baixa prontidão digital destes países, menor alfabetização digital, ou a falta de logística que facilite o comércio electrónico. Instalar e operar um robô em África, neste momento, fica sempre mais caro do que em qualquer outro continente, principalmente por causa do custo da energia.

O que é a economia digital

As definições de economia digital evoluíram ao longo do tempo. Quando Tapscott cunhou o termo, a ênfase estava na rede de seres humanos através da tecnologia. Depois acrescentou-se o fenómeno emergente do comércio electrónico no início de 2000. Mais recentemente, a economia digital foi entendida como uma rede mundial de actividades, económicas e sociais, proporcionadas pela tecnologia digital.

A economia digital contém assim, uma gama de tecnologias com um enorme potencial para afectar a organização da produção bem como a eficiência dos processos de produção, e inclui redes móveis, computação em nuvem, inteligência artificial, internet das coisas (Internet of Things), aprendizagem das máquinas e Big Data. Estas tecnologias são claramente interligadas e dinâmicas, mas precisam de infra-estruturas físicas e digitais para operarem.

Quanto aos bens que estão a ser criados nesta economia digital, estão incluídos produtos de comércio electrónico – produtos físicos encomendados e comercializados digitalmente – e bens transmitidos electronicamente – como aplicações, ou arquivos de música e imagem.

O desenvolvimento e o acesso à economia digital são suportados por um ambiente próprio, que inclui a literacia digital, programação, desenvolvimento web, design digital, gestão de produtos, marketing digital, ou análise de Big Data, políticas e regulamentação que incentive o desenvolvimento das TIC, a inovação e os modelos de negócios digitais e aceleradores digitais como apoio governamental ao desenvolvimento das TIC nacionais, parques digitais, etc.

Como está a decorrer a transformação digital

Medir a transformação digital da economia é actualmente uma tarefa complexa, uma vez que ainda não existe consenso na literatura existente sobre como deve ser feito este cálculo. Mas utilizando modelos como o de Knickrehm (que usa um índice que combina informações sobre literacia, activos produtivos como software e hardware e equipamentos de comunicação, com outros aspectos da economia digital – ambiental, cultural e comportamental), conclui-se que as cinco principais economias digitais entre 2014 e 2016 foram os Estados Unidos, o Reino Unido, a Suécia, a Holanda e a Austrália. Usando os dados de 11 economias, Knickrehm calculou que a economia digital movimente cerca de 16,2 triliões de dólares, cerca de 22% do PIB mundial.

Comparando a extensão da digitalização entre os países em desenvolvimento e os menos desenvolvidos, a UNCTAD concluiu que a maioria dos países em desenvolvimento com renda mais elevada tem taxas de penetração da internet entre 50% e 60%, enquanto os países em desenvolvimento de renda baixa têm abaixo de 40%. A maioria dos países com menos de 10% de penetração da internet são africanos. Além de terem menos acesso à internet, a maioria dos países africanos também sofre com o fraco desempenho das redes – com velocidades de download e upload significativamente mais baixas que os países asiáticos e com mais atrasos na rede de processamento de dados.

Isto significa o quê? Que há diferenças gritantes na capacidade de usar tecnologias digitais no continente africano. Por exemplo, se falarmos de indústria baseada na computação em nuvem – que permite aos trabalhadores aumentar o seu alcance, através do acesso a sites remotos, ou da partilha de vídeo em tempo real. O documento mostra que apesar dos países africanos poderem usar os aplicativos básicos da computação em nuvem – como e-mail, ou navegação web – só conseguem usar uma das quatro principais aplicações avançadas (que incluem, por exemplo, telemedicina, mercado de acções de alta frequência, ou transmissão em ultra alta definição).

Recentemente, os estudos começaram a usar também dados sobre robôs para quantificar o nível de digitalização, ou seja, o número de robôs vendidos pelos principais fornecedores aos diferentes países (as informações são recolhidas pela Federação Internacional de Robótica). As estimativas actuais apontam para a existência entre 1,5 milhões e 1,75 milhões de robôs industrias a operar, números que poderão subir para 4 a 6 milhões até 2025. A maioria destes robôs trabalha no sector automóvel, seguindo-se a indústria electrónica, metalurgia e químicos.

A partir de 2001, o número de robôs vendidos para a Ásia/Austrália aumentou (principalmente para países como a China, o Japão e a Coreia), enquanto a parcela para África manteve-se insignificante quando comparado com outras regiões do globo. Aliás, tem diminuído desde 2013, atingindo 0,14% em 2015. Aliás, 75% das vendas de robôs (em unidades) concentrou-se em apenas cinco mercados: China, República da Coreia, Japão, EUA e Alemanha.

Semelhante a esta implantação de robôs industriais, a venda de impressoras 3D disparou igualmente, com um aumento de 32% desde 2016, principalmente as impressoras 3D pessoais, cujo custo actual está já abaixo dos 1.000 dólares. Apesar do preço apresentar descidas constantes desde 2012, as impressoras 3D continuam a ser vendidas essencialmente para os países desenvolvidos. O mercado africano representa menos de 5%.

Outra forma de medir a digitalização da economia tem sido o comércio electrónico, ou seja, a compra e venda de bens e serviços usando a internet. Inclui produtos físicos negociados através de plataformas de e-commerce, o comércio de bens electrónicos (arquivos de áudio, vídeo, jogos) e de serviços electrónicos (software, processamento de dados, etc.). De acordo com os cálculos da UNCTAD, o e-commerce cresceu de 16 triliões de dólares em 2013 para 22,5 triliões de dólares em 2015. Embora a maior parte deste comércio seja interno, o comércio electrónico internacional está a crescer igualmente a um ritmo acelerado – em 2015, o comércio electrónico transfronteiriço atingiu os 1,6 triliões de dólares, 14% do e-commerce global.

O impacto da digitalização

Alguns estudos sugerem que o impacto da digitalização nos países em desenvolvimento é exagerado. Esses estudos argumentam que a substituição do trabalho por automação só ocorrerá nos países em que essa mudança é economicamente viável e que, por essa razão, a produção automatizada irá concentrar-se principalmente nas economias desenvolvidas e na China.

No entanto, outras previsões apontam para o aumento do número de robôs no mercado já em 2019, com esse número a subir exponencialmente nos anos seguintes. Além disso, outros estudos sustentam que mais de metade das ocupações em todos os sectores corre o risco de serem automatizados pelas tecnologias emergentes. Em África, este rácio, de automatização futura do trabalho, alterna entre os 65% e os 85%. Um relatório recente, da autoria de McKinsey, estima uma percentagem alta de automatização nas economias em desenvolvimento – 41% dos empregos na África do Sul, 50% no Brasil, 52% no Quénia, 46% na Nigéria, 50% na Etiópia – o que sugere que mudar trabalhadores da agricultura para a indústria poderá deixar de funcionar como catalisador do crescimento económico.

Há pouquíssimas análises sobre o impacto da digitalização no desempenho económico dos países africanos, mas sabe-se que a produtividade do trabalho de uma economia pode ser melhorada através do progresso tecnológico, da acumulação de capital e da transferência do trabalho de actividades menos produtivas para actividades mais produtivas. Na década de 90, a mão-de-obra africana entrou no sector agrícola, em vez de sair, o que diminuiu o crescimento da produtividade do trabalho. O mesmo se aplica à indústria e à falta de crescimento geral da produção manufactureira em África. Apesar da produtividade da África subsaariana ter aumentado entre 2006 e 2013, comparando com o período 1991 – 2006, isso deveu-se a um fenómeno extra industrialização: a saída da mão-de-obra da agricultura para os serviços de baixa produtividade.

A industrialização proporcionou oportunidade de crescimento e emprego em muitos países asiáticos, mas não tem sido tão bem sucedida nos países africanos, com raras excepções. Enquanto a Ásia aumentou significativamente a sua participação nas exportações mundiais de produtos manufacturados (passou de 36,2% em 2005 para 44,4% em 2014), a participação africana aumentou marginalmente (de 0,8% para 0,9%). Como referem os autores do estudo, há um potencial inexplorado para impulsionar o crescimento económico nos países africanos, onde os sectores promissores incluem os têxteis, horticultura, indústria automóvel e bens de consumo.

Enquanto a economia digital global está em franco crescimento, continua a existir uma persistente brecha digital entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Comparando países asiáticos e países africanos, estes últimos estão atrasados no uso da internet, no comércio digital, na implementação de robôs, no desenvolvimento das TIC, a que se junta a exclusão digital africana que tem a sua origem no maior custo de capitais e na baixa prontidão digital – principalmente em termos de competências, conexões, infra-estruturas, logística e alfândegas.

Reduzir esta exclusão digital terá importantes implicações nos países em desenvolvimento. A digitalização terá impacto no aumento da produtividade, das exportações, na criação de emprego na indústria, apesar de ser igualmente esperada uma substituição do trabalho pela automação.

No entanto, se nada for feito para reduzir esta brecha digital, as economias desenvolvidas crescerão mais rapidamente e os países africanos correm o risco de serem deixados para trás, sendo assim incapazes de recuperar o atraso.
 

Sugestões de política

  • Aumento de manufactura: os países africanos devem procurar uma produção virada para a exportação. Para isso precisam de resolver os constrangimentos actuais de acesso à energia, melhores telecomunicações e estradas.
  • Digitalização da indústria: o acesso à internet nos países africanos é muito mais caro que na Ásia, são por isso necessárias políticas que aumentem a penetração da internet junto dos cidadãos. Os governos devem investir também na criação do ecossistema, apoiando a criação de centros tecnológicos e de inovação. Só o Quénia, por exemplo, tem oito centros tecnológicos, um deles, o iHub, tem 150 empresas instaladas e mais de 13 mil trabalhadores. Ou o caso do Kumasi Hive, no Gana, o primeiro a especializar-se em hardware, apoiando o crescimento das empresas e fornecendo-lhes um espaço onde podem fabricar, treinamento em engenharia, codificação, robótica, inteligência artificial, ou impressão 3D. Actua também como incubadora, oferecendo apoio nas diferentes etapas da formação dos produtos: conceptualização da ideia, treinamento apropriado, criação de redes com parceiros e atracção de fundos.
  • Aproveitar a digitalização para impulsionar a economia: o estudo mostra que mesmo que os países africanos tenham acesso ao mesmo nível tecnológico que os países asiáticos, não conseguem ainda utilizar as TIC da mesma maneira para transformarem a economia, a principal causa é a mão-de-obra menos qualificada. O desenvolvimento da literacia digital deve ser, assim, uma prioridade política.

Os autores do estudo
Dirk Willem te Velde, é investigador e chefe do Grupo Internacional de Desenvolvimento Económico, com inúmeras publicações sobre comércio, investimento e transformação económica. É conselheiro de diversos governos em África, na Ásia e nas Caraíbas e de agências como a Comissão Europeia, as Nações Unidas e o Banco Mundial.

Karishma Banga, é investigadora na Universidade de Manchester, nas áreas de comércio, cadeia de valor global e economia digital.
Fonte: Expresso das Ilhas

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