Praia: A cidade que cresce a dois ritmos aos olhos de toda a gente

Praia, a capital cabo-verdiana, é uma cidade que cresce a dois ritmos, pois, enquanto de um lado notam-se as barracas que abrigam a pobreza extrema, do outro, os edifícios de luxo das famílias mais abastadas.

Os bairros de assentamentos espontâneos de Jamaica, Kobom Mendi (Covão Mendes), Fundo de Achada Mato, Água Funda e Kobom di Fomi (Covão da Fome) são exemplos de como a miséria está a tomar conta de um país de rendimento médio, em que o fosso entre o pobre e o rico é cada vez mais notório.

Para quem chega de meio aéreo à capital, depara-se com um cenário triste e que dói na alma. Bairros de lata a contrastar com algumas opulências que esta mesma cidade apresenta em termos de riqueza. Uma situação que incomoda qualquer um, logo, também o visitante.

Se de longe a pobreza fere a vista mesmo ao cidadão mais incauto, de perto, a miséria daqueles que povoam essas “casas” de papelão e latas velhas toca o coração de qualquer humano. São gentes que, tocadas pelo mau ano agrícola de 2017, vieram, sobretudo do interior de Santiago e da ilha do Fogo, à procura de melhores condições de vida na capital.

Por exemplo, a jovem Jassira Correia veio dos Picos, interior de Santiago, à procura de alternativas na Praia. Não receia mostrar a pobreza extrema em que sobrevive. No interior da sua habitação, parece que se está em Vénus. Temperatura insuportável. Mas é lá que vive com os seus três filhos menores. É o espaço que lhe foi disponibilizado por um vizinho que, como diz, lhe fez um grande favor, caso contrário, estaria a dormir ao relento.

Na parte norte da Praia, mais concretamente na localidade de Cobom di Fomi (Covão da Fome) em Achada de S. Filipe, também está a nascer um bairro de lata.  Ali já vivem nove famílias. A falta do emprego e de terreno para construírem suas habitações próprias é um ponto comum a todos. Dizem que não é por gosto que querem viver nessas condições de pobreza extrema.  Sem trabalho, prosseguem, não conseguem pagar renda das casas onde estavam. Entretanto, chega-lhes agora mais um pesadelo. Há pouco tempo foram notificados pelas autoridades camarárias da Praia de que terão que deixar o local.

“O pai de dois dos meus três filhos é morto, enquanto o outro, um senegalês, emigrou para França e nunca mais quis saber de nós”, conta Gracinda Gomes que diz não ter onde morar, a não ser na sua modesta barraca.

Não pode trabalhar porque sofreu uma intervenção cirúrgica, vive da venda de peixes, mas não deve expor-se ao sol durante muito tempo.

Gracinda prefere continuar na sua barraca, a ter que ser realojada, por exemplo, nas casas da Classe A do Programa Casa para Todos, porque segundo ela, onde se encontra neste momento pode criar algumas cabeças de animais, como galinha, porco ou cabra que contribuem para a sua economia doméstica.

Por sua vez, Emília Lopes Andrade (Nina), depois de perder o emprego, deixou de poder pagar a renda da casa onde morava. Daí ter optado por construir uma barraca onde mora com os seus cinco filhos.

“Há três anos e seis meses que ocupo este espaço com a minha barraca e se me retirarem daqui não tenho por onde ir”, queixa-se Emília Andrade.

“Queremos um pedaço de terreno para construirmos a nossa casa”, desabafa, por seu turno, Sandra Rocha que alega que há mais de três anos optou por construir uma barraca, porque não conseguia pagar o aluguer de uma casa.

Ela afirma, em tom de desespero, que prefere correr o risco de serem arrastados pelas cheias a ter que deixar o local, onde construiu a sua barraca, já que não têm por onde ir, depois de conseguir um espaço onde “meter a cabeça”, segundo ela.

Délcio Moreira é um outro morador da zona de barracas de Covão da Fome que também se mostra preocupado com a decisão da câmara municipal de os desalojar do local.

Desempregado, apela às autoridades no sentido de lhes oferecer alguma alternativa para que não fiquem na rua.

“Não queremos ficar à toa na rua”, exorta Délcio Moreira, um jovem de 21 anos de idade.

Recentemente, a ministra das Infra-estruturas, Eunice Silva, numa entrevista ao jornal Expresso das Ilhas, anunciou que as casas da Classe A do Programa Casa para Todos (PCT) já foram transferidas para as câmaras municipais que, doravante, passam a geri-las.

Segundo a governante, cerca de 2000 casas da referida classe já passaram para a gestão dos presidentes de câmaras municipais.

Instado pela Inforpress sobre estas casas do PCT no município da Praia, o edil Óscar Santos admitiu que o processo relativo a estes fogos “está em curso”.

“Estamos em processo de assinatura de um memorando com a Direcção Geral do Património o Estado e, assim que estiver concluído, porque ainda faltam alguns detalhes para efetivarmos a transferência, iniciaremos o concurso, sobretudo para as habitações de Achada Limpa”, afiançou o presidente da câmara municipal da Praia (CMP).

Perguntado se na distribuição dessas casas serão contempladas as pessoas de Fundo Achada Mato, Jamaica, Água Funda e Covão da Fome (Achada de S. Filipe) que habitam casas de lata e papelão, Óscar Santos não garante que poderão ser beneficiados, porque, conforme explicou, o critério de distribuição é definido através de concurso.

Segundo o autarca, as casas são atribuídas mediante concurso, pelo que, à partida, não se pode garantir que fulano ou beltrano será contemplado.

Asseverou, por outro lado, que compete aos serviços sociais da câmara de seleccionar as pessoas, de acordo com a necessidade de cada um.

“As pessoas têm que estar conscientes de que não há casas para todos”, adverte o presidente da CMP, adiantando que no quadro do Programa Casa para Todos estão disponíveis apenas 300 moradias, enquanto o número de necessitados é muito mais do que isso.

Entretanto, alertou também para um outro fenómeno latente. É que, segundo avançou, na localidade de Ribeira de Achada Mato, por detrás das barracas construídas estão os negócios com os terrenos que muitas pessoas pretendem fazer.

“Muitos marcam o território, construindo uma barraca para, mais tarde, vendê-la”, denunciou Óscar Santos.

O autarca disse ainda, que os ocupantes das barracas já foram notificados que deverão deixar estas choupanas, “até por uma questão de sanidade”.

Quanto às construções feitas nas ribeiras, o edil deixa a garantia que as mesmas, por uma “questão de segurança” deverão ser transferidas por outros lugares mais seguros.

“Cabo Verde, está a enfrentar agora chuvas cada vez mais violentas. Chuvas e ventos fortes constituem um perigo para aquelas pessoas que vivem no leito das ribeiras”, precisou, acrescentando que “há mais de três meses” que a edilidade praiense já advertiu aqueles moradores para procurarem um outro local.

O ultimato de Óscar Santos é que até ao fim do ano as barracas da Ribeira de Achada Mato, Água Funda, Jamaica e Achada de S. Filipe terão de acabar.

“A câmara está disponível a garantir habitações temporárias a essas pessoas, porque não dispõe de orçamento para disponibilizar casas para todo o mundo”, enfatizou o edil Óscar Santos.

Fonte: Inforpress

Notícias

Conselho de Ministros aprova lei que institui Zona Económica Especial de Economia Marítima em São Vicente

Missão empresarial de Cabo Verde em Portugal visita Marinha Grande para “aprender com os melhores” em investigação e design industrial

"Batuka". O novo video de Madonna com a Orquestra Batukadeiras

Ginástica Rítmica: Noa Veiga representa Cabo Verde no Mundial de Júniores na Rússia

São Tomé e Príncipe e Cabo Verde celebram acordo de supressão de vistos