Boka Panu. Para reinterpretar o Pano Terra

Já está em preparação mais uma edição da URDI – Feira de Artesanato e Design – que o Centro Nacional de Artesanato, Arte e Design (CNAD) realiza anualmente em Mindelo. Enquadrado neste evento decorre o concurso Boka Panu que quer os criadores a repensar e a dar nova vida ao emblemático pano di terra.

A URDI, que a partir de 2016 veio substituir o FONARTES, aposta na mostra e promoção do artesanato e do design nas suas múltiplas expressões, com particular relevo para o que for “Created in Cabo Verde”.

No ano passado, a feira anual de artesanato e design de Cabo Verde já apresentara aos designers e criativos o desafio de partirem de objetos típicos do quotidiano nacional para criarem novas peças. O concurso Redesenhar o Interior de Nossas Casas teve sucesso e os protótipos produzidos foram exibidos durante o Salão de Design_Created in Cabo Verde na URIDI 2017.

Desta vez o CNAD convida os designers, artesãos, arquitetos e outros criativos a inovar a partir de um objecto específico: o pano terra. Os padrões deste objeto da panaria tradicional cabo-verdiana deverão servir de inspiração a designers, artesãos, arquitetos e outros criativos para propostas contemporâneas de design.

O concurso Boka Panu – aberto a criativos cabo-verdianos (com residência nacional ou na diáspora) e estrangeiros a residir em Cabo Verde, a pessoas coletivas ou singulares, sem qualquer limite de idade – aceita propostas originais e inéditas até 28 de setembro, sendo que cada concorrente poderá apresentar até 2 projetos, individualmente ou em grupo.

Critérios como inovação, qualidade estética e formal, sustentabilidade, desafio experimental e dimensão simbólica serão tidos em conta e a proposta deverá ainda ser exequível no âmbito da URDI 2018, de forma a cumprir uma das etapas pós-concurso.

O anúncio das propostas vencedoras – o júri irá escolher 15 – vai se fazer a 05 de outubro. De 08 desse mês a 10 de novembro é a fase da execução dos protótipos escolhidos. Estes serão exibidos no Salão de Design_Created in Cabo Verde - cuja inauguração está prevista ser a 28 de novembro, dois meses depois do encerramento do prazo de candidaturas – e passarão a integrar o espólio criativo do CNAD. Os direitos de autor serão salvaguardados, reservando ao Centro autorização para divulgação de imagens e informações referentes aos projetos artísticos. A quarta e última fase do concurso contempla a edição do Catálogo do Salão de Design_Created in Cabo Verde.

Quanto a prémios, o projeto que merecer o maior número de votos por parte do júri recebe sessenta mil escudos cabo-verdianos. Os restantes projetos selecionados terão os custos de execução assumidos na totalidade pela organização. Os mesmos serão exibidos no Salão de Design durante a URDI 2018 e vão estar representados no respetivo Catálogo.

Para ajudar na divulgação do concurso e incentivar à participação o CNAD nomeou embaixadores em algumas ilhas.

A importância do CNA
A Importância do CNA na criação de uma Identidade Visual Cabo-Verdiana é o tema do URDI 2018, que pretende relembrar a relevância do Centro Nacional de Artesanato, criado em 1977 a partir da Cooperativa Resistência lider­ada por Luísa Queirós, Manuel Figueira e Bela Duarte.

O edital de Boka Panu diz que o CNA reconheceu na panaria tradicional “valores técnicos, estéticos e simbólicos de tal maneira significativos que levaram o grupo a investigar, absorver e reinterpretar em novas obras os elementos gráficos deste fazer ancestral”. Um trabalho que caracteriza como persistente e pertinente e que terá contribuído para que se conhecesse melhor a história de Cabo Verde.

Pano de Obra, pano tchã e pano bitcho
Estes três tipos de panos diferenciam-se por determinadas características, nomeadamente a posição dos padrões e, no caso do pano tchã pela ausência de padrão. O tecido manufaturado a partir de teares artesanais já serviu como moeda no passado, séculos XVI e XVII, sobretudo no comércio com a costa de África.

Tradicionalmente fabricado em preto e branco e sobretudo nas ilhas de Santiago e Fogo, este pano de algodão tinha maior presença no meio rural onde era usado pelas mulheres, amarrado à volta da cintura. Algo que depois viria a ser recriado pelos grupos de batuque. Nos dias de hoje já raras vezes é o pano de terra o que as bailarinas de batuco amarram à cintura, tendo em conta que este se tornou num item de moda.

Fabricado em diversas cores, mas mantendo os padrões tradicionais o pano terra passou a ser incluído em peças de vestuário, bolsas, bonés, sapatos e itens de decoração, tornando-se uma marca, um símbolo nacional.

Com o concurso Boka Panu o CNAD espera projetos que reflitam sobre o percurso da panaria cabo-verdiana e o seu manancial temático e criativo por forma a desenvolver propostas de design “que explorem não só a releitura dos padrões como a imensidão de possibilidades estética, formal e simbólica oferecidas por este legado”. Ou seja, partir dessa matriz tradicional para criar, tecer, redesenhar e propor novas abordagens.

Fonte: Expresso das Ilhas

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